13/10/2026
A Inteligência Artificial (IA) já se integrou ao dia a dia de milhões de crianças e jovens, especialmente como recurso invisível. Ela sugere o próximo vídeo, completa a busca, reage às escolhas em um jogo, transforma uma imagem com um filtro ou traduz uma frase em segundos. Atualmente, a IA está se tornando objeto de compreensão, investigação e produção de diversos conteúdos.
Ao invés de consumir o que a IA oferece, crianças e jovens podem aprender a perguntar, testar, questionar e criar com essas ferramentas. Essa transformação pode ser vista apenas como mais uma competência digital. Na prática, ela inicia uma nova fase da educação, ao deslocar o foco do uso instrumental para a compreensão crítica dos processos que sustentam a tecnologia.
Afinal, o que precisamos compreender sobre IA?
Para compreendermos a Inteligência Artificial a partir de um viés crítico, reflexivo e responsável, precisamos entender seu funcionamento básico. De forma simples, muitos dos sistemas de IA usados atualmente aprendem padrões a partir de grandes quantidades de dados e utilizam esse aprendizado para classificar, prever, recomendar ou gerar conteúdo. Com as ferramentas atuais, essa ideia chegou de forma mais visível ao cotidiano infantil e juvenil.
O processo educacional que envolve a formação voltada para a Inteligência Artificial, tendo em vista a educação de crianças e jovens, não precisa visar a formação de especialistas em programação. A intenção é despertar a curiosidade sobre o que acontece por trás daquela ferramenta e avançar para que esses sujeitos compreendam como são os processos que compõem o mecanismo das ferramentas que utilizam IA.
Imagine, por exemplo, uma atividade de sala de aula. Com uma IA apenas como recurso, o estudante pode pedir ajuda para resolver um problema de matemática ou gerar uma imagem. Cada etapa termina ali, na resposta pronta.
Um estudante orientado a investigar, apoiado pelas ferramentas adequadas, poderia receber um desafio como: “teste esta ferramenta com diferentes informações e identifique em que situações ela erra”. A partir daí, poderia experimentar, observar, comparar resultados e formular hipóteses. É a passagem de receber uma resposta da IA para, em determinados contextos, investigar como ela chegou até ali.
Quando o uso deixa de ser apenas uma tarefa isolada
As escolas utilizam recursos digitais há décadas para pesquisar, produzir textos, resolver exercícios e apresentar trabalhos. A diferença é que grande parte desse uso depende de um objetivo pré-definido, quando a tarefa pede pesquisa, por exemplo, a ação adequada é buscar informações. Compreender a IA amplia essa lógica porque exige interpretar processos menos visíveis, nos quais é necessário questionar dados, reconhecer vieses e decidir que perguntas fazer em seguida.
Por isso, o impacto potencial está em integrar essa reflexão a diferentes momentos do processo pedagógico. Pense numa atividade de produção de texto em que a turma testa como a ferramenta responde a diferentes prompts. Em vez de restringir a IA a uma tarefa pontual, a escola pode fazer com que ela atravesse vários momentos da aprendizagem.
E o que acontece com a compreensão?
As primeiras experiências com IA na escola já mostram ganhos relevantes. Quando o foco deixa de estar apenas no uso da ferramenta e passa a se concentrar no que se pode aprender com ela, os estudantes passam a analisar respostas, verificar informações e identificar erros com mais autonomia. A UNESCO chama atenção para esse aspecto ao discutir o uso responsável da IA na educação.
Um aspecto particularmente interessante é que os ganhos não aparecem de forma igual em todas as etapas do processo. Em alguns momentos, os estudantes mais curiosos são os que mais avançam, o que indica que a investigação pode ajudar a disseminar posturas críticas entre toda a turma.
Com a espiral da aprendizagem criativa, porém, a discussão sobre compreensão ganha outra dimensão. A pergunta deixa de ser apenas “a resposta da IA estava certa?” e passa a incluir: “que ciclo de experimentar, observar, questionar, mudar e recomeçar esse resultado pode abrir?”. Isso muda a própria relação entre estudante e tecnologia.

E o protagonismo do estudante?
Se os estudantes puderem testar, questionar e recriar a partir das respostas da IA, parte do trabalho escolar pode migrar para atividades como formular hipóteses, comparar resultados, identificar vieses e tomar decisões sobre o que produzir. Isso não significa simplesmente trocar o caderno pela tela.
O documento da UNESCO mostra que o uso da IA por estudantes varia de acordo com a situação: algumas tarefas são automatizadas pela própria ferramenta, em outras os alunos preferem manter o controle total e, em alguns casos, a IA serve para impulsionar a criatividade e dessa forma, tornarem-se protagonistas.
O UNICEF também aponta nessa direção na transformação da relação com a tecnologia, e não necessariamente na substituição do pensamento crítico. Por isso, talvez seja mais útil investigar processos do que apenas avaliar respostas prontas.
Uma atividade pedagógica reúne etapas muito diferentes. Algumas podem ser apoiadas pela IA, outras podem ser ampliadas pela investigação crítica e outras continuarão dependendo fortemente de julgamento, criatividade, ética e responsabilidade humana.
Quanto mais presente a IA, maior a necessidade de mediação
Existe ainda uma diferença importante entre uma IA que apenas responde e outra que é usada como objeto de investigação. Uma ferramenta que sugere uma resposta pronta apresenta um determinado nível de risco pedagógico. Uma atividade que convida o estudante a questionar essa mesma resposta apresenta outro. O mesmo vale para situações que envolvem dados pessoais, imagens ou informações de localização compartilhadas com essas ferramentas.
Por isso, o uso da IA na escola exige atenção a temas como privacidade, representatividade, vieses, ética e responsabilidade. Em muitos casos, o modelo mais adequado provavelmente não será o uso livre e sem mediação.
O professor poderá permitir que o estudante explore determinadas etapas sozinho e intervir com perguntas antes de aceitar um resultado como definitivo. Quanto maior a presença da IA no cotidiano escolar, mais importantes se tornam a mediação e a formação docente.
Saber usar IA também está mudando
A popularização da IA generativa chamou muita atenção para uma nova habilidade: saber usar bem as ferramentas. Ela continua sendo útil, mas a compreensão crítica aponta para um conjunto mais amplo de competências.
Os estudantes precisarão saber identificar o que uma resposta da IA revela, questionar os dados e escolhas por trás dela, avaliar resultados, compreender limitações e reconhecer situações em que a decisão deve permanecer com uma pessoa. Para professores, surge outro desafio: não usar a IA simplesmente porque ela está disponível.
Antes de propor uma atividade com IA, é preciso entender o processo: qual é o objetivo pedagógico, quais reflexões estão envolvidas, quais dados a ferramenta utiliza, quais erros podem surgir e em quais momentos a mediação do professor é indispensável. Usar uma tecnologia sem propósito pedagógico claro pode apenas ocupar o tempo de aula, sem ampliar a compreensão.
A educação pode ser mais “investigativa”
Talvez essa seja uma das melhores maneiras de entender o que está acontecendo. A primeira relação das crianças e jovens com a IA colocou ferramentas ao lado de suas rotinas: sistemas que sugerem, respondem, filtram e recomendam.

Um estudante pode se relacionar com diferentes ferramentas de IA: uma sugere um vídeo, outra corrige um texto, outra gera uma imagem e outra apoia um cálculo. O estudante deixa de ser apenas quem recebe essas respostas e passa, em determinados contextos, a investigar, questionar e criar a partir delas, com a mediação do professor.
Isso não significa que chegamos a um cenário de compreensão plena e automática. Crianças e jovens ainda apresentam limitações importantes quanto à leitura crítica de dados, vieses e implicações éticas. Mas a direção da mudança já está mais clara. Quando a escola convida o estudante a investigar a IA, a discussão deixa de ser apenas sobre usar a ferramenta corretamente. Ela passa a envolver privacidade, representatividade, autoria e responsabilidade.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja: “como uso essa IA?”, mas: “que perguntas essa resposta da IA me permite fazer, o que ela revela sobre os dados que a formaram e que decisões eu preciso tomar diante dela?”
Entender essa diferença pode ser um dos passos mais importantes para formar, desde cedo, cidadãos capazes de conviver de forma crítica e responsável com a Inteligência Artificial.
Por: Thais Angela Cavalheiro de Azevedo, Fabricio Kleinicke Gomes e Gabriela do Carmo Pierre Souza Barreto | Àrea Educacional da Facti
Referências
BRASIL. Ministério da Educação. Documentos. Programa Escolas Conectadas. 2026.
CLACKAMAS COMMUNITY COLLEGE. What is AI Literacy? Competencies and Design Considerations. 2020.
NATIONAL RESOURCE HUB. Guidance for generative AI in education and research. 2023.
NÓVOA, A. Conhecimento profissional docente e formação de professores. Revista Brasileira de Educação, 2022.
REDE BRASILEIRA DE APRENDIZAGEM CRIATIVA. Introdução à Aprendizagem Criativa.
UNESCO. Marco referencial de competências em IA para estudantes. 2025.
UNICEF. Guidance on AI and children 3.0. 2025.
UNITED STATES. Department of Education. Artificial Intelligence and the Future of Teaching and Learning. 2023.